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Já se passava das 14 horas, e a dor de barriga apertava. Ele tinha um ótimo relógio biológico, para dormir, acordar, alimentar-se e fazer suas necessidades. Costumava ir ao banheiro ainda de manhã, antes de sair para o trabalho. Naquele dia, porém, precisava passar em dois bancos para fazer depósitos, e ainda por cima havia acordado alguns minutos depois do de costume. Resolveu deixar a questão fisiológica para mais tarde.
Em sua empresa, cada sala tinha seu próprio banheiro, mas resolveu não ser inconveniente com seus colegas, que sempre reclamavam de um sujeitinho nojento que tinha o hábito de defecar praticamente perante todos. Achou por bem, embora necessitado, esperar o horário de almoço. Comeria qualquer coisinha na região e voltaria logo, antes de qualquer um. Foi o que fez; mas, assim que chegou, foi-lhe atribuída uma tarefa urgente.
Estava desesperado, seu organismo implorava por um vaso sanitário.
Seus colegas estranharam o fato de estar quieto, transpirando, encolhido à mesa. Perguntaram se estava tudo bem.
Não estava, tanto é que, sem saber o que fazer, resolveu ir tomar água, como se fosse adiantar de algo. No corredor, notou que uma das salas estava vazia. Informou-se e descobriu que o pessoal do marketing estava em uma reunião com a diretoria. Aleluia!
Sem pensar duas vezes, encostou a porta de entrada da sala, para não ser pego andando por ali, e foi ao banheiro. Nos primeiros segundos da obra, pensou que a melhor coisa da vida não era dinheiro, não era amor, não sexo: era aquilo. Ficou sorrindo, achando graça.
Precisou abrir o basculante para o ar dar uma circulada. Quase dez minutos depois, lavou o rosto e, pronto para sair, ouviu a porta se abrir.
— Jesus, Maria e José! Que cheiro é este?
Era a copeira trazendo, na bandeja, o café e os biscoitos. Achou por bem ficar em silêncio e esperar ela ir embora, para sair. Mas, assim que se retirou, várias vozes se aproximaram; continuou em silêncio. Muitos entraram na sala.
Desesperado, agachou-se e espiou por debaixo da porta, utilizando o reflexo do granito. Os marketeiros, os diretores e outras pessoas, que possivelmente seriam clientes. Estavam se sentando; a reunião agora estava ali!
Pensou em sair naquele momento, como quem não quer nada. Como se fosse normal usar o banheiro em outra sala. Como se só estivesse de passagem. Talvez dizer um oi aos clientes. Talvez cobrir a cabeça com a toalha, para não ser reconhecido, e sair em disparada — sem dúvida a melhor opção, concluiu. Pensou tanto no que fazer, que achou melhor não fazer nada. Absolutamente nada. Ficou.
Não tinha religião, mas fez uma oração para que ninguém quisesse usar o banheiro e encontrasse a porta trancada. E assim foi ficando, acompanhando, ora em pé, ora sentado, o que era discutido.
Sentou-se no canto, deu uma cotovelada na porta, assustou-se com o barulho, espirou por debaixo da porta. Nada foi notado.
Jurou a si próprio que nunca mais utilizaria outro banheiro, senão o de sua sala. Se seu colega nojento podia, então ele também. E que importa o que pensariam, estaria apenas seguindo sua natureza. Refletiu sobre enviar uns currículos.
Às 17:00, totalmente de saco cheio, pensou em como poderia aproveitar o tempo. Terminou de desabotoar a camisa. Se tivesse cera ali, faria aquela depilação que sempre tanto quis. Arrancou um pelo do peito para ver se doía muito. Médio. Arrancou outro. Arrancou um pequeno tufo. E foi arrancando, assim, todos os pelos maiores. Arrependeu-se de ter feito isso quando constatou que seria impossível arrancar os menores, da região da barriga. Nem mesmo com a pontinha das unhas. Achou-se bizarro.
Ouviu seus colegas, das demais salas, indo embora. Ouviu novamente a copeira chegando. Pelo reflexo, viu que estava trazendo um lanchinho para o pessoal. Será que ficariam ainda mais? Momentos depois chegou gente nova à reunião. Aparentemente, pessoas importantes, pois um silêncio precedeu a chegada e todos se levantaram para cumprimentá-los.
Jurou a si próprio que nunca mais utilizaria outro banheiro na face da Terra, senão o de sua casa.
Pelo basculante espiou o estacionamento e cogitou a hipótese de pular daquele andar. Desistiu quando não conseguiu passar os ombros.
Sentou-se, tirou os sapatos. Poliu-os com papel higiênico. Tirou os cadarços, lavou-os na pia. Mandou mensagem pelo celular avisando que chegaria mais tarde. Encostou-se na parece, chorou e abriu a porta.

 Música do dia = Swagger = (Flogging Molly)